Na “Missa sobre o Mundo” Teilhard Chardin não sugere que aceitemos passivamente os
sofrimentos, mas que os encaremos da mesma forma como Jesus Cristo fez!!!
Pierre Teilhard Chardin era um homem de fé e profundamente otimista. Sabia que vivia num mundo criado por Deus, e que nada do que existia à sua volta tinha a sua origem fora d'Ele. Claro que ele não era cego e estando no meio das trincheiras da II Guerra Mundial convivia diariamente com a dor e o sofrimento e isso não lhe era indiferente. Não podendo celebrar a Eucaristia, por falta de Pão e Vinho, fez esta belíssima oração:
"Senhor, já que uma vez
ainda, não mais nas florestas da França, mas nas estepes da Ásia, não tenho
pão, nem vinho, nem altar, eu me elevarei acima dos símbolos até à pura
majestade do Real, e vos oferecerei, eu, vosso sacerdote, sobre o altar da
terra inteira, o trabalho e o sofrimento do mundo".
"O sol acaba de iluminar,
ao longe, a franja extrema do primeiro oriente. Mais uma vez, sob a toalha
móvel de seus fogos, a superfície viva da Terra desperta, freme, e recomeça seu
espantoso trabalho. Colocarei sobre minha patena, meu Deus, a messe esperada
desse novo esforço. Derramarei no meu cálice a seiva de todos os frutos que
hoje serão esmagados".
"Meu cálice e minha
patena, são as profundezas de uma alma largamente aberta a todas as forças que,
em um instante, vão elevar-se de todos os pontos do Globo e convergir para o
Espírito. - Que venham pois, a mim, a lembrança e a mística presença daqueles
que a luz desperta para uma nova jornada!"
"Outrora, carregava-se
para vosso Templo as primícias das colheitas e a flor dos rebanhos. A oferenda
que esperais agora, aquela de que tendes misteriosamente necessidade cada dia,
para aplacar vossa fome, para acalmar vossa sede, não é nada menos do que o
crescimento do mundo impelido pelo devir universal".
"Recebei, Senhor, esta
Hóstia total que a Criação, movida por vossa atração, vos apresenta à nova
aurora. Este pão, nosso esforço, não é em si, eu o sei, mais que uma degradação
imensa. Este vinho, nossa dor, não é ainda, ai de mim, mais que uma dissolvente
poção. Mas, no fundo dessa massa informe, colocastes – disso estou certo,
porque o sinto – um irresistível e santificante desejo que nos faz a todos
gritar, desde o ímpio ao fiel: "Senhor, fazei-nos Um!"
"Porque, à falta do zelo
espiritual e da sublime pureza de vossos santos, deste-me, meu Deus, uma
simpatia irresistível por tudo quanto se move na matéria obscura, - porque
irremediavelmente, reconheço em mim, bem mais que um filho do Céu, um filho da
Terra, - subirei, esta manhã, em pensamento, às alturas, carregado das
esperanças e das misérias de minha Terra-Mãe; e lá, por força de um sacerdócio
que somente Vós, creio, me destes, - sobre tudo aquilo que, na Carne humana, se
prepara para nascer ou perecer sob o sol que se levanta, eu chamarei o
Fogo".
"Aconteceu. O fogo, mais
uma vez, penetrou na Terra. Não caiu ruidosamente sobre os cimos como o raio em
seu fragor. Força o Mestre as portas para entrar em sua casa? Sem abalo, sem
trovão, a chama iluminou tudo por dentro. Desde o coração do menor átomo à
energia das leis mais universais, ela tão naturalmente invadiu, individual e
conjuntamente, cada elemento, cada mola, cada liame de nosso Cosmos que ele,
poder-se-ia crer, inflamou-se espontaneamente".
"E agora, pronunciai sobre
ele, por minha boca, a dupla e eficaz palavra, sem a qual tudo desmorona, tudo
se desata, em nossa sabedoria e em nossa experiência, - mas com a qual tudo se
reúne e tudo se consolida, a perder de vista, em nossas especulações e nossa
prática do Universo. – Sobre toda a vida que vai germinar, crescer, florescer e
amadurecer neste dia, repeti: "Isto é o meu Corpo". – E, sobre toda a
morte pronta a corroer, fanar e segar, ordenai (o mistério de fé por excelência!):
"Isto é o meu Sangue".
"Rico da seiva do Mundo,
subo para o Espírito que me sorri para além de toda conquista, revestido do
esplendor concreto do Universo. E, perdido no mistério da Carne divina, eu já
não saberia dizer qual é a mais radiosa destas duas bem-aventuranças: ter
encontrado o Verbo para dominar a Matéria, ou possuir a Matéria para atingir e
receber a luz de Deus".
"Se o Fogo desceu ao
coração do Mundo é, finalmente, para me tomar e para me absorver. A partir de
então, não basta que eu o contemple e que por uma fé viva intensifique sem
cessar seu ardor à minha volta. É preciso que, depois de haver cooperado, de
todas as minhas forças, com a Consagração que o faz jorrar, eu consinta enfim
na comunhão que lhe dará em minha pessoa o alimento que ele veio finalmente
procurar".
"Cristo glorioso,
influência secretamente difusa no seio da Matéria e Centro deslumbrante em que
se ligam todas as fibras inúmeras do Múltiplo; Potência implacável como o Mundo
e quente como a Vida; Vós que tendes a fronte de neve, os olhos de fogo, os pés
mais irradiantes que o ouro em fusão; Vos cujas mãos aprisionam as estrelas,
Vós que sois o primeiro e o último, o vivo, o morto e o ressuscitado: Vós que
reunis em vossa unidade todos os encantos, todos os gostos, todas as forças,
todos os estados: é por Vós que meu ser chamava com um desejo mais vasto do que
o universo: Vós sois verdadeiramente meu Senhor e meu Deus!"
"Senhor, encerrai-me no
mais profundo das entranhas de vosso Coração. E, quando aí me tiverdes,
abrasai-me, purificai-me, inflamai-me, sublimai-me, até a satisfação perfeita
de vossos gostos, até a mais completa aniquilação de mim mesmo."
"Toda minha alegria e meu
êxito, toda a minha razão de ser e meu gosto de viver, meu Deus, estão
suspensos a essa visão fundamental de vossa conjunção com o Universo. Que
outros anunciem os esplendores de vosso puro Espírito! Para mim, dominado por
uma vocação que penetra até ás últimas fibras de minha natureza, eu não quero,
eu não posso dizer outra coisa que os inúmeros prolongamentos de vosso Ser
encarnado através da matéria: jamais poderia pregar senão o mistério de vossa
Carne, ó Alma que transpareceis em tudo o que nos rodeia!"
"Ao vosso Corpo em toda
sua extensão, isto é, ao Mundo tornado por vosso poder e por minha fé o crisol
magnífico e vivo em que tudo aparece para renascer, eu me entrego para dele
viver e dele morrer, ó Jesus"
Trechos da Oração: A MISSA SOBRE O MUNDO, de TEILHARD DE CHARDIN.

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