Novelas Bíblicas

Novelas Bíblicas


Novela Bíblica é um gênero literário que faz a narrativa de textos da Bíblia. O tempo da novela é o passado. Esta espécie de texto apresenta um enredo com início, meio e fim e, como toda novela, geralmente mostra um final feliz!. Segundo Cássio Murilo,  a novela bíblica: “parte de uma série de outros acontecimentos. Não são acontecimentos públicos, mas fatos da vida pessoal e privada de um personagem, seus sentimentos e reações [...] A trama se desenvolve em três tempos: Inicia com uma situação de conflito ou tensão; se desenvolve com desdobramento do conflito, que se agrava; e termina com a resolução do conflito, o desenlace final” (Metodologia de Exegese Bíblica, p. 191). Nas Sagradas Escrituras, especificamente no Primeiro Testamento, encontramos seis novelas a  de José do Egito, de Rute, de Tobias, de Judite, de Ester e a de Jonas.


 História de José livro do Gênesis 37, 2-36


José tinha dezessete anos e pastoreava o rebanho com seus irmãos. Ajudava os filhos de Bala e Zelfa, mulheres de seu pai. Certo dia, falou a seu pai da má fama que eles tinham. José era o preferido de Israel, porque era o filho de sua velhice e, por isso, mandou fazer para ele uma túnica de mangas longas. Seus irmãos perceberam que o pai o preferia aos outros filhos. Por isso, ficaram com raiva, e não falavam amigavelmente com ele.
Um dia, José teve um sonho e o contou a seus irmãos, que ficaram com mais raiva dele. José disse aos irmãos: Escutem o sonho que eu tive. Estávamos atando feixes no campo; meu feixe se levantou e ficou de pé e os feixes de vocês o rodearam e se prostraram diante dele. Os irmãos lhe perguntaram: Será que você está querendo ser nosso rei ou dominar-nos como senhor? E eles ficaram com mais raiva ainda, por causa dos sonhos que José lhes contava. E José teve mais um sonho que contou a seus irmãos: Tive outro sonho: o sol, a lua e onze estrelas se prostravam diante de mim. Ele contou o sonho a seu pai e aos irmãos. Então o pai o repreendeu, dizendo: Que sonho é esse que você teve? Quer dizer que eu, sua mãe e seus irmãos vamos prostrar-nos por terra diante de você? Os irmãos ficaram com ciúmes de José, enquanto o pai meditava sobre o assunto.
Os irmãos de José foram apascentar o rebanho de seu pai em Siquém. Israel disse a José: Seus irmãos devem estar com os rebanhos em Siquém. Venha cá! Vou mandar você até onde eles estão. José respondeu: Aqui estou. O pai lhe disse: Então vá ver como estão seus irmãos e o rebanho, e traga-me notícias. O pai o mandou do vale de Hebron, e José chegou a Siquém.
Um homem encontrou José que andava errante pelos campos. E lhe perguntou: O que é que você está procurando? José respondeu: Procuro meus irmãos. Por favor, diga-me: onde eles estão apascentando os rebanhos? O homem disse: Eles partiram daqui, e eu os ouvi dizer que iam para Dotain. Então José foi à procura de seus irmãos e os encontrou em Dotain. Os irmãos o viram de longe e, antes que se aproximasse, começaram a planejar a morte dele. Disseram entre si: Aí vem o sonhador! Vamos matá-lo e jogá-lo num poço. Diremos que um animal feroz o devorou. Veremos, então, para que servem seus sonhos.
Rúben ouviu isso e procurou salvar José das mãos deles. Rúben disse: Não vamos matá-lo». E continuou: Não derramem sangue. Joguem o rapaz nesse poço do deserto, mas não levantem a mão contra ele. Rúben pretendia salvar José das mãos deles e devolvê-lo ao pai. Quando José chegou ao lugar onde estavam seus irmãos, eles lhe arrancaram a túnica de mangas longas, o agarraram e o jogaram dentro de um poço vazio, onde não havia água. Depois, sentaram-se para comer.
Levantando os olhos, viram uma caravana de ismaelitas que vinha de Galaad. Seus camelos estavam carregados de especiarias, bálsamo e resina, que levavam para o Egito. Então Judá falou a seus irmãos: Que vamos ganhar matando nosso irmão e escondendo o crime? Vamos vendê-lo aos ismaelitas, mas não levantemos a mão contra ele, pois afinal ele é nosso irmão, da mesma carne que nós. Os irmãos concordaram. Quando passaram alguns mercadores madianitas, estes retiraram José do poço, e depois venderam José aos ismaelitas por vinte moedas de prata, e estes o levaram para o Egito. Quando Rúben voltou ao poço, viu que José não estava mais aí. Então rasgou as vestes e, voltando até os irmãos, falou: O rapaz não está mais lá. E eu, para onde irei?
Então pegaram a túnica de José e, degolando um bode, molharam a túnica no sangue. Mandaram levar a túnica para o pai, dizendo: Encontramos isso; veja se é ou não é a túnica do seu filho. O pai olhou e disse: É a túnica do meu filho! Uma fera o devorou: José foi despedaçado! Jacó rasgou as vestes, vestiu-se de luto e chorou a morte do filho por muito tempo. Todos os seus filhos e filhas procuraram consolá-lo, mas ele recusava consolo e dizia: De luto por meu filho descerei ao túmulo. E seu pai chorou por ele.
Entretanto, os madianitas no Egito venderam José para Putifar, ministro e chefe da guarda do Faraó.

História do Livro de Rute

No tempo em que os juízes governavam, houve um período de fome no país. Por isso, um homem de Belém de Judá emigrou para os Campos de Moab, com a mulher e os dois filhos. O homem se chamava Elimelec, a mulher Noemi, e os dois filhos Maalon e Quelion. Eram do vale de Éfrata, de Belém de Judá. Chegaram aos Campos de Moab e aí ficaram morando.
Elimelec, marido de Noemi, morreu. E ela ficou só com os dois filhos. Estes se casaram com moças moabitas; um se casou com Orfa e o outro com Rute. E aí ficaram por uns dez anos. Maalon e Quelion morreram. Noemi ficou sozinha, sem os dois filhos e sem o marido.
Noemi resolveu voltar dos Campos de Moab, junto com as duas noras, pois ficou sabendo que Javé tinha abençoado seu povo, dando-lhe pão. Ela com as noras saiu do lugar onde tinha morado e se pôs a caminho para voltar à terra de Judá. No caminho, Noemi perguntou às noras: Por que vocês não voltam para a casa de sua mãe? Que Javé trate vocês com a mesma bondade que vocês tiveram com meus filhos e comigo. Javé faça cada uma de vocês encontrar marido e viver feliz. Noemi beijou as noras e elas começaram a chorar alto, dizendo: De jeito nenhum! Nós vamos com você para o seu povo. Noemi insistiu: Voltem, minhas filhas. Por que vocês querem ir comigo? Vão ficar esperando que eu tenha mais filhos para se casar com eles? Voltem, minhas filhas, porque eu estou velha demais para me casar outra vez. Mesmo que eu tivesse esperança, me casasse esta noite, e tivesse filhos, será que vocês deixariam de casar, esperando os meninos crescer? Não, minhas filhas! Minha sorte é mais amarga que a sorte de vocês, porque a mão de Javé está contra mim.
Elas começaram de novo a chorar. Depois, Orfa se despediu da sogra e voltou para seu povo. Rute, porém, ficou com Noemi. Então Noemi lhe disse: Veja: sua cunhada voltou para o seu povo e o seu deus. Volte você também com ela. Rute respondeu: Não insista comigo. Não vou voltar, nem vou deixar você. Aonde você for, eu também irei. Onde você viver, eu também viverei. Seu povo será o meu povo, e seu Deus será o meu Deus. Onde você morrer, eu também morrerei e serei sepultada. Somente a morte nos poderá separar. Se eu fizer o contrário, que Javé me castigue!
Noemi viu que Rute estava decidida a ir com ela, e não insistiu mais. Puseram-se a caminho e chegaram a Belém. Logo que entraram na cidade, todo mundo se alvoroçou, e as mulheres comentavam: Não é a Noemi? Mas Noemi corrigia: Não me chamem de Noemi. Me chamem de Mara, porque o Todo-poderoso me encheu de amargura. Parti com as mãos cheias, e Javé me traz de volta de mãos vazias! Não me chamem de Noemi, porque Javé está contra mim e o Todo-poderoso me tornou infeliz.
Foi assim que Noemi voltou dos Campos de Moab, junto com sua nora Rute, a moabita. Chegaram a Belém quando estava começando a colheita da cevada.
Noemi tinha um parente, por parte do marido. Era uma pessoa importante do clã de Elimelec, e se chamava Booz. Rute, a moabita, disse a Noemi: Deixe-me ir ao campo onde estão colhendo cevada. Se alguém me deixar, irei atrás dele catando umas espigas». Noemi concordou: Pode ir, minha filha. E Rute foi ao campo catar o restolho das espigas, atrás dos cortadores. E por acaso foi parar num dos campos de Booz, do clã de Elimelec. Nesse momento, Booz estava chegando de Belém e cumprimentava os cortadores: Javé esteja com vocês». Eles responderam: Javé o abençoe. Então Booz perguntou ao capataz: Quem é aquela moça? O capataz respondeu: É uma moabita, que voltou com Noemi dos Campos de Moab, e me pediu para catar o restolho das espigas. Ela chegou de manhã e está de pé até agora, sem parar um só momento.
Então Booz disse a Rute: Escute, minha filha. Não vá catar espigas em outro campo. Não se afaste daqui. Fique com minhas empregadas. Observe o terreno que os homens estão ceifando e vá atrás deles. Ordenei aos meus empregados que não incomodem você. Quando estiver com sede, pode ir até as bilhas e beber a água que os empregados tiverem trazido. Então Rute se prostrou com o rosto no chão e perguntou a Booz: Por que o senhor está sendo tão bom comigo? Por que está dando tanta atenção para mim? Eu sou uma estrangeira! Booz respondeu: Fiquei sabendo de tudo o que você fez por sua sogra, depois que você perdeu o marido. Você deixou pai e mãe, abandonou sua terra natal e veio viver no meio de um povo que você não conhecia. Javé lhe pague o que você fez. Que você receba uma grande recompensa de Javé, Deus de Israel, pois foi debaixo das asas dele que você veio buscar abrigo.  Rute disse: Que eu mereça o favor que o senhor está fazendo por mim. O senhor me tranqüilizou e me falou ao coração, embora eu não seja nem mesmo sua empregada.
Na hora de comer, Booz chamou Rute: Venha cá. Coma do nosso pão e molhe o pão no caldo». Rute se sentou ao lado dos cortadores, e Booz ofereceu para ela espigas assadas. Ainda sobrou depois que Rute comeu e ficou satisfeita.
AQuando Rute se levantou para continuar a cata de restolhos, Booz ordenou aos empregados: Deixem essa moça catar espigas também entre os feixes, e não a incomodem. Deixem também cair algumas espigas dos feixes e não fiquem bravos quando ela as recolher. E Rute catou espigas no campo até a tarde. Depois bateu as espigas que tinha recolhido. Deu quase quarenta e cinco quilos.
Rute carregou e voltou para a cidade. E sua sogra viu o que ela havia recolhido. Rute deu também para a sogra algumas espigas assadas que tinham sobrado do almoço. A sogra perguntou: Onde você catou essas espigas? Onde você trabalhou hoje? Bendito seja quem se interessou por você. Rute contou à sogra com quem havia trabalhado, e disse: O dono do campo onde trabalhei se chama Booz. Noemi disse à nora: Que ele seja abençoado por Javé, que não deixa de ter misericórdia pelos vivos e pelos mortos. E continuou: Esse homem é nosso parente próximo, é um dos que têm o direito de resgate sobre nós. Rute, a moabita, disse: Ele também me falou para ficar com os empregados até que terminem toda a colheita. Noemi disse à sua nora Rute: Minha filha, é bom que você esteja com as empregadas dele. Em outro campo você poderia ser maltratada. Então Rute continuou com as empregadas de Booz, recolhendo espigas até o fim da colheita da cevada e do trigo. Depois ficou morando com a sogra.
Noemi disse a Rute: Minha filha, tenho que procurar para você uma situação melhor, para que se sinta feliz. Acontece que Booz é nosso parente e você esteve trabalhando com as empregadas dele. Esta noite ele vai bater a cevada no terreiro. Faça o seguinte: tome banho, perfume-se, vista seu manto e vá ao terreiro. Não deixe que ele veja você, antes que tenha acabado de comer e beber. Quando ele for dormir, olhe bem onde ele se deita. Depois vá, tire a coberta dos pés dele e deite-se. Ele dirá o que você deve fazer. Rute respondeu: Vou fazer tudo o que você está me dizendo.
Rute foi para o terreiro e fez tudo o que a sogra havia mandado. Booz comeu, bebeu, ficou alegre e depois foi deitar-se ao lado de um monte de cevada. Então Rute chegou de mansinho, tirou a coberta dos pés dele e se deitou. No meio da noite, Booz acordou de repente, sentou-se, e viu a mulher deitada a seus pés.
Booz perguntou: Quem é você? Ela respondeu: Sou Rute, sua serva. Estenda seu manto sobre mim, porque você tem o direito de resgate. Booz disse: Deus abençoe você, minha filha. Este seu novo ato de amor é maior do que o primeiro, porque você não procurou jovens, sejam pobres ou ricos. Não tenha medo, minha filha. Vou fazer tudo o que você está dizendo. Todo mundo na cidade sabe que você é mulher de valor. Sei que tenho o direito de resgate, mas há outro parente mais próximo que eu. Passe a noite aqui. Amanhã cedo vamos procurar o outro. Se ele quiser resgatar você, deixe que ele resgate. Se ele não quiser resgatar você, então eu usarei o meu direito de resgate. Juro por Javé. Fique deitada aqui até o amanhecer.
Rute ficou dormindo aos pés de Booz até o amanhecer, e se levantou quando ainda não dava para uma pessoa reconhecer a outra, pois Booz não queria que ninguém soubesse que ela tinha ido ao terreiro. Booz então lhe disse: Abra o manto e o segure. Rute segurou o manto e Booz o encheu com uns vinte quilos de cevada. Depois lhe ajudou a colocar nos ombros, e Rute voltou para a cidade.
Quando chegou em casa, a sogra lhe perguntou: Como é que foi, minha filha? Rute contou tudo o que Booz tinha feito por ela, e acrescentou: Ele me deu estes vinte quilos de cevada, pois achou que eu não devia voltar para você de mãos vazias. Noemi lhe disse: Fique tranqüila, minha filha. Você vai ver como isso tudo vai terminar bem: estou certa de que esse homem não vai descansar. Garanto que hoje mesmo ele vai resolver a questão.
Booz foi à porta da cidade e aí sentou-se. Quando passou o parente do qual tinha falado, Booz o chamou: Ei, fulano, venha sentar-se aqui. O homem se aproximou e sentou-se. Booz convidou dez anciãos da cidade, e lhes disse: Sentem-se aqui. Todos se assentaram. Então Booz disse ao homem que tinha o direito de resgate: Escute! Noemi, que voltou dos Campos de Moab, está querendo vender o terreno que pertencia ao nosso irmão Elimelec. Estou informando você, para ver se está interessado na compra. O povo que está aqui e os anciãos vão ser testemunhas. Se você quiser resgatar o terreno, pode resgatar. Se não quiser resgatar, declare isso para mim, pois além de nós não há mais ninguém com direito de resgatar o terreno. O direito cabe primeiro a você e depois a mim. O homem respondeu: Muito bem. Aceito resgatar. Então Booz acrescentou: «Tem outra coisa: comprando o terreno de Noemi, você estará adquirindo também Rute, a moabita, mulher do falecido. Desse modo, a herança do falecido continuará com o nome dele. Então o homem que tinha o direito ao resgate disse: Não posso fazer isso, porque eu acabaria prejudicando meus herdeiros. Entrego o meu direito para você. Pode resgatar você o terreno, porque isso eu não posso fazer.
Antigamente, quando se faziam resgates ou trocas em Israel, havia este costume: para dizer que o negócio estava garantido, a pessoa tirava a sandália e a entregava ao parceiro. Era assim que se fechava um negócio em Israel. Foi o que fez aquele que tinha o direito de resgate. Ele disse a Booz: Resgate você o terreno. E lhe entregou a sandália.
Então Booz disse aos anciãos e ao povo: Vocês hoje são testemunhas de que eu estou comprando de Noemi tudo o que pertencia a Elimelec, a Quelion e a Maalon. Ao mesmo tempo, estou adquirindo como esposa a moabita Rute, viúva de Maalon, a fim de conservar o nome do falecido na herança dele, e para que o nome do falecido não desapareça do meio de seus irmãos nem da porta de sua cidade. Vocês são testemunhas? Todos os que estavam aí presentes, na porta da cidade, junto com os anciãos, responderam: Nós somos testemunhas. Que Javé torne essa mulher, agora entrando em sua casa, como Raquel e Lia, que formaram a casa de Israel. Quanto a você, Booz, seja poderoso em Éfrata e tenha fama em Belém. E pelos filhos que Javé vai dar a você, por meio dessa moça, que a sua casa seja como a casa de Farés, que Tamar deu à luz para Judá.
Booz se casou com Rute. E ela se tornou sua esposa. Booz teve relações com ela, e Javé deu a Rute a graça de engravidar, e ela deu à luz um filho. As mulheres diziam a Noemi. Javé seja bendito! Ele não deixou que hoje faltasse para você um resgatador. O nome dele se tornará famoso em Israel. Ele será para você um consolador e um apoio na velhice, pois quem o gerou é sua nora. Ela ama você, e é melhor para você do que sete filhos.
Noemi pegou o menino, o pôs no colo e foi para ele uma verdadeira mãe de criação. As vizinhas deram um nome ao menino, dizendo: Nasceu um filho para Noemi. E lhe deram o nome de Obed. Obed foi o pai de Jessé. E Jessé foi o pai de Davi.
Esta é a descendência de Farés: Farés foi o pai de Hesron. Hesron foi o pai de Ram. Ram foi o pai de Aminadab. Aminadab foi o pai de Naasson. Naasson foi o pai de Salmon. Salmon foi o pai de Booz. Booz foi o pai de Obed. Obed foi o pai de Jessé. E Jessé foi o pai de Davi.


História do Profeta Jonas


A palavra de Javé foi dirigida a Jonas, filho de Amati, ordenando: Levante-se e vá a Nínive, a grande cidade, e anuncie aí que a maldade dela chegou até mim. Jonas partiu, então, com intenção de escapar da presença de Javé, fugindo para Társis. Desceu até Jope e aí encontrou um navio de saída para Társis. Pagou a passagem e embarcou, a fim de ir com eles até Társis, para escapar assim da presença de Javé.
Javé, porém, mandou sobre o mar um vento forte, que provocou uma grande tempestade e ondas violentas. E o navio estava a ponto de naufragar.
Os marinheiros começaram a ficar com medo e a rezar cada um ao seu próprio deus. Jogaram no mar a carga que estava no navio, a fim de diminuir-lhe o peso. Jonas, porém, tinha descido ao porão do navio e, deitado, dormia a sono solto. O capitão, ao chegar aonde ele estava, disse-lhe: O que você faz aí dormindo? Levante-se e invoque o seu Deus. Quem sabe ele se lembra de nós e não nos deixa morrer.
Depois disseram uns aos outros: Vamos tirar sorte para ver quem é o culpado dessa desgraça que nos está acontecendo. Tiraram a sorte, e ela caiu em Jonas. Então lhe perguntaram: «Conte para nós por que é que nos está acontecendo essa desgraça. Qual é a sua profissão? De onde você vem? Qual é a sua terra? De que povo é você? Jonas respondeu: Eu sou hebreu. Eu adoro a Javé, Deus do céu, que fez o mar e a terra.
Os marinheiros ficaram com medo, e lhe perguntaram: O que foi que você fez? Eles tinham percebido que Jonas estava fugindo da presença de Javé, pois ele próprio lhes tinha contado tudo. E perguntaram: O que é que vamos fazer com você, para que o mar se acalme? Pois o mar estava cada vez mais bravo. Jonas respondeu: É só vocês me pegarem e me atirarem ao mar, que ele se acalmará em volta de vocês; eu sei que foi por minha causa que lhes veio essa tempestade tão violenta.
Os homens tentavam remar, a fim de chegar mais perto da terra firme, mas não conseguiam, pois o mar ia ficando cada vez mais agitado, ventando contra eles. Então invocaram a Javé, dizendo: Ah! Javé! Não queremos morrer por causa deste homem. Não lances contra nós a culpa de um sangue inocente. Tu és Javé e fazes tudo o que desejas.
Pegaram Jonas e o jogaram ao mar. Imediatamente o mar acalmou a sua fúria. Daí para frente aqueles homens começaram a temer muito a Javé, oferecendo-lhe sacrifícios e fazendo votos.
 Javé enviou um peixe bem grande para que engolisse Jonas. E Jonas ficou no ventre do peixe três dias e três noites. E do ventre do peixe, Jonas dirigiu a Javé, seu Deus, a seguinte oração: na minha angústia invoquei a Javé, e ele me atendeu. Do fundo do abismo pedi tua ajuda, e ouviste a minha voz. Jogaste-me nas profundezas, no coração do mar, e a torrente me envolveu. Passaram sobre mim as tuas ondas e vagas. Então pensei: ‘Eu fui expulso para longe dos teus olhos; nunca mais poderei admirar a beleza do teu santo Templo?’ Eu estava cercado de água até o pescoço, o abismo me rodeava, um lodo se agarrava à minha cabeça. Desci até as raízes das montanhas, a terra se fechava sobre mim para sempre. Mas tu retiraste da fossa a minha vida, Javé, meu Deus! Quando minhas forças se acabavam, eu me lembrei de Javé. E minha oração pôde chegar a ti, no teu santo Templo. Quem segue os ídolos, abandona o amor de Javé. Mas eu, entre cânticos de louvor, é a ti que presto o meu culto e com ação de graças cumpro os meus votos. Então Javé mandou que o peixe vomitasse Jonas em terra firme.
A palavra de Javé foi dirigida a Jonas pela segunda vez, ordenando: Levante-se e vá a Nínive, a grande cidade, e anuncie-lhe o que vou dizer a você. Jonas se levantou e foi a Nínive, conforme Javé lhe tinha ordenado. Nínive era uma cidade fabulosamente grande: tinha o comprimento de uma caminhada de três dias. Jonas entrou na cidade e começou a percorrê-la, caminhando um dia inteiro. Ele dizia: Dentro de quarenta dias, Nínive será destruída!
Os moradores de Nínive começaram a acreditar em Deus, e marcaram um dia de penitência, vestindo-se todos de pano de saco, desde os maiores até os menores.  O fato chegou também ao conhecimento do rei de Nínive. Ele se levantou do trono, tirou o manto, vestiu um pano de saco e sentou-se em cima da cinza. Mandou também publicar e anunciar aos ninivitas um decreto do rei e de seus ministros, nestes termos: Homens, animais, gado e ovelhas não poderão comer nada, nem pastar, nem beber água. Deverão vestir pano de saco, tanto homens como animais; e todos clamarão a Deus com toda a força. Cada um deverá converter-se de sua má conduta e deixar de lado toda espécie de ações violentas. Quem sabe, assim, Deus volte atrás, fique com pena, apague o ardor de sua ira, e a gente consiga escapar.
Deus viu o que eles fizeram e como se converteram de sua má conduta; então, desistiu do mal com que os tinha ameaçado, e não o executou.
Jonas ficou muito desgostoso e despeitado. E rezou a Javé: Ah! Javé! Não era justamente isso que eu dizia quando estava na minha terra? Foi por isso que eu corri, tentando fugir para Társis, pois eu sabia que tu és um Deus compassivo e clemente, lento para a ira e cheio de amor, e que voltas atrás nas ameaças feitas. Se é assim, Javé, tira a minha vida, pois eu acho melhor morrer do que ficar vivo.
Javé respondeu-lhe: Está certo você ficar irritado desse jeito?
Jonas saiu da cidade e ficou no lado do nascer do sol. Aí fez uma cabana e sentou-se na sombra, esperando para ver o que aconteceria com a cidade. O Senhor Javé fez nascer uma mamoneira, que cresceu de modo a fazer sombra sobre a cabeça de Jonas e livrá-lo de uma insolação. E Jonas ficou muito contente com essa mamoneira. Então, na madrugada seguinte, Deus enviou um verme que prejudicou a mamoneira, e ela secou. Quando o sol nasceu, Javé mandou um vento quente e sufocante; e o sol abrasava a cabeça de Jonas, a ponto de fazê-lo desmaiar. E Jonas tornou a pedir a morte, dizendo: Prefiro morrer do que ficar vivo! Deus perguntou a Jonas: Está certo você ficar com tanta raiva por causa da mamoneira? Ele respondeu: Sim, está certo eu ficar com raiva, a ponto de pedir a morte. Javé lhe disse: Você está com dó de uma mamoneira, que não lhe custou trabalho, que não foi você quem a fez crescer, que brotou numa noite e na outra morreu? E eu, será que não vou ter pena de Nínive, esta cidade enorme, onde moram mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem distinguir a direita da esquerda, além de tantos animais?


Bibliografia

SILVA, Cássio Murilo da. Metodologia de Exegese Bíblica. São Paulo: Paulinas,1992.
Bíblia Sagrada - Edição Pastora. São Paulo: Paulus, 2002.