terça-feira, 14 de junho de 2011

A Oração que Brota do Coração.

Dona Nazaré é uma mulher de muita fibra. Muito pobre. Vive sozinha nesse mundo ao lado de sua filha. Uma menina moça que nasceu com sérios problemas sanguíneos.
Desde pequena a menina sempre viveu doente. Poucas foram as noites que dona Nazaré não passou acordada boa parte do tempo tentando aliviar a dor da sua pequena.
Além das muitas dores que sentia em todo o corpo, a menina tinha uma fraqueza tão acentuada que a impediam de fazer até mesmo os serviços mais simples. Por ter que cuidar da filha e sendo sozinha no mundo, dona Nazaré vivia de uma pensão de meio salário mínimo, conseguida a duras penas, graças a ajuda de um vereador da região.
O dinheiro mal dava pra comer quanto mais para comprar os remédios cada dia mais necessários e mais caros.
A menina vivia a base de remédio caseiro e do cuidado primoroso da bondosa mãe.
Infelizmente com o passar do tempo o problema da menina foi piorando.
Naquela manhã, depois de uma noite inteirinha ao lado da filha, dona Nazaré não teve outra saída senão ir até Itajubá, a cidade mais próxima, para ver se conseguia alguma ajuda.
Como não conseguiu dinheiro pra levar a filha que estava fraca demais, tentou ajuda junto aos estudantes de medicina que fazem estagio no hospital universitário. Infelizmente o hospital não dispõe de condições pra fazer o atendimento domiciliar, ainda mais que a paciente estava a 18 km de distância.
Dona Nazaré não desistiu. Mãe não desiste. Foi até a Santa Casa. Quem sabe ali encontraria um médico que pudesse ir até a sua casa pra tentar curar a sua filha. Também lá não conseguiu nada, a não ser a promessa de que se trouxesse a menina, tentariam dar um jeito de interná-la. Mas infelizmente não teriam como deslocar-se até o interior.
Ela ficou pensando.
Pra ir até Delfim Moreira pedir a ambulância da prefeitura é uma viagem fora de mão. Quase impossível.
O jeito era trazer a menina pra Santa Casa de misericórdia de Itajubá. Nasceu no coração daquela mãe aflita um raio de esperança, quem sabe conseguiria alguém que ajudasse a trazer a menina. Decidiu voltar pra casa e pedir ajuda aos vizinhos, pensou especialmente no japonês, um plantador de arroz que tinha um jipe e de vez em quando as presenteava com meio saco de arroz recém colhido. Quando voltava ao mercado municipal, que tomaria um ônibus ou pegaria uma carona, dona Nazaré passou em frente a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Soledade. Como boa mineira, entrou para rezar um pouco. Dentro da Igreja tinha um grupo de animados jovens: rezavam, cantavam, era um grupo carismático. Por alguns instantes dona Nazaré acabou se esquecendo de sua filha doente. A música daqueles jovens era bonita demais. E dona Nazaré foi se misturando ao animado grupo. Depois de algumas suaves canções os jovens começaram a rezar. Cada hora era um que fazia uma oração espontânea. Lindas e profundas orações. Dona Nazaré se sentindo motivada e talvez até contagiada pela fé daqueles jovens, quase da idade da sua filha, também se dispôs a fazer uma oração. Claro que os jovens ficaram felizes. E acolheram com muito carinho a sua disposição.
Mas, quando a mulher começou a oração, alguns dos meninos tiveram que se segurar muito para não cair na gargalhada. Que oração mais estranha aquela mulher estava fazendo. Ela falava com Jesus como se Ele fosse um entregador de pizzas, pensou um dos meninos.
Quem será que Ela pensa que é Jesus pra falar desse jeito com Ele? – questionava intimamente uma das coordenadoras do grupo.
A mulher começava a rezar com devoção. A oração dela:
- Senhor Jesus, olha sou eu, a Nazaré. Não sei se o Senhor se lembra. Sou lá do Biguá. Muitas vezes já conversei com o Senhor na Igreja de São Benedito, lembra?
Pois é Senhor Jesus, o problema da minha menina ta cada vez pior. Essa noite ela não pregou os olhos nem um minuto, nem eu. A pobre da coitadinha gemeu a noite toda. Virava pr’um lado e pro outro. Suava feito uma condenada. Não sei como ela está lá agora. Vim aqui pra ver se achava um médico, pra ir em casa consultar ela. Mas os médicos não podem ir. Se fosse o doutor Gaspar eu sei que ele iria, que Deus o tenha. Lá na Santa Casa, mandaram eu trazer a menina. Como eu vou conseguir fazer isso? Ela ta fraca demais.
Não temos dinheiro pra alugar uma ambulância, até pensei em pedir ajuda pro senhor Toshio, aquele bondoso plantador de arroz, quem sabe ele traz a menina. Mas agora eu to aqui Senhor, eu queria pedir. Já que o Senhor está em todo lugar o Senhor bem que podia ir até lá em casa curar a minha filha. Não custa nada. O senhor sabe e pode.
Os jovens estavam estragando aquela oração. Dois rapazes dos mais novos não conseguiram segurar o riso e chegaram a sair da Igreja. “Onde já se viu uma pessoa rezar desse jeito?” “Até é falta de respeito falar assim com Jesus!” “Ela nem louvou o Senhor!” “Não recitou nenhum versículo da Sagrada Escritura!” “Ela não sabe rezar!” “Com certeza nunca fez uma experiência de oração.” “Sua oração estava atrapalhando o grupo.” “O grupo tava indo tão bem.” – concluiu um dos rapazes que tinha saído.
Dona Nazaré continuou rezando.
- É verdade. O senhor num instantinho podia ir lá em casa curar a menina e já voltava. Não é difícil chegar na nossa casa não. O Senhor pega a rodovia que vai pra Aparecida do Norte, lá eu sei que o Senhor conhece bem, na ponte de Santo Antonio o Senhor entra rumo Delfi Moreira, só que na hora que chegar na água limpa, bem em frente a fábrica de queijo, o Senhor vira pra esquerda, passa a ponte e continua… Depois da ponte não vira pra direita não. Lá vai para o mosteiro de Serra Clara. Minha casa fica para o outro lado. Então o Senhor passa a ponte e segue reto. Em frente sobe um morrinho bem pesado e já vai virando pra direita. Logo o Senhor já chega lá na estação onde antigamente a gente pegava o trem. Não é lá não. Lá tem uma placa com o nome Biguá mas o Biguá é mais pra cima. O Senhor passa a morada do pessoal dos ramos, depois vem a reta do Zé Gaspar, chega na curva da Cridia, ali não vira pro la do da ponte não, passa meio reto pra lado esquerdo, sobe o morrinho do grupo escolar, o Senhor vai passar em frente a casa onde o baiano morava. Depois vem a casa que era do Venazão. Ali tem até um atalho mas é melhor o Senhor ir pela estrada mesmo. Logo depois da curva o Senhor já vai ver a Igreja de São Benedito, ali é fácil. É só o Senhor perguntar na bar do Lourenço que ele sabe onde fica a minha casa, ele vende queijo, é o vereador que arrumou o fundo rural pra nós, é só o Senhor pedir pra ele que até é capaz dele levar o Senhor lá em casa, eu moro pertinho.
A essa altura os jovens já estavam se esforçando para não cair na gargalhada. Era uma experiência inédita além de longa aquilo, segundo eles, não era oração.
Mas dona Nazaré continuou:
- A hora que o Senhor chegar lá em casa a portas vai tá trancada, não tem problema, a chave ta no vaso de flor que fica pendurado no alpendre. O senhor pode entrar, cura a minha filha e depois, por favor, tranca de novo a porta, que eu me preocupo muito com a menina.
Depois que o senhor curar ela, é só fechar a porta, colocar a chave no mesmo vaso que a hora que eu chegar eu acho e entro.
O jovem que tocava o violão começou a tocar uma musica e cantar bem alto, dona Nazaré parou de rezar, saiu da Igreja até meio triste, nem deu tempo pra ela dizer pro nosso Senhor que tinha café no bule em cima do fogão de lenha, caso Ele quisesse tomar um golinho. E no forninho tinha bolão de fubá. Paciência. Ater que o jovem cantava bonito. – Só foi meio grosseiro interrompendo a minha oração. – Com o pensamento continuou rezando. Desceu a escadaria da matriz, atravessou a ponte que antigamente era muito mais bonita quando tinha os dois arcos, e foi na direção do mercado. Quem sabe um filho de Deus não lhe daria uma carona! Graças a Deus conseguiu a carona num caminhão de Sento Silva. Um pouco mais de meia hora lá estava ela de volta, sem remédio, e com a esperança de pedir ao Senhor Toshio que levasse a menina pra Santa Casa. Qual não foi a sua surpresa ao abrir a porta de sua casinha e encontrou a menina sent ada, comendo um delicioso prato de arroz doce, a sua filha querida.
A menina deu um pulo de alegria e veio correndo abraçar a mãe. Dona Nazaré ficou estupefata. Já tinha até se esquecido da sua reza na Igreja.
- Minha filha, você de pé? Que cara mais boa. Como é que isso aconteceu?
E a menina começou a explicar:
- Olha mamãe, eu estava deitada, como a senhora me deixou, rezei meu terço da misericórdia junto com a Eliana Sá, escutando a rádio Canção Nova. E acabei cochilando ouvindo o Diácono Nelsinho Correia cantar Quem Me Segurou Foi Deus. De repente, eu escutei um barulho na porta, como estava quase dormindo achei que fosse a senhora, que já tinha voltado. Nossa mamãe, quase eu morri! Não era a senhora. Era um homem muito bonito, grande, risonho. Ele usava uma roupa diferente, tinha um cabelo enorme. Me olhou como nunca ninguém me olhou na vida. Ele foi chegando perto de mim e eu fui perdendo o medo. Comecei a sentir um negócio que parecia um choque elétrico, meu sangue parece que fervia. Ele não falou nada. Foi chegando em silêncio, devagarinho. Com um baita sorriso nos lábios. Chegou perto da minha cama, me estendeu a mão, pensei que fosse um médico. Tentei perguntar pela senhora mas as palavras não saiam. Eu falava mas não escutava nada. Eu acho que tava muda, surda, não sei. Só sei que Ele me segurou firme pela mão, foi me levantando vagarosamente, me colocou de pé, e me deu um grande abraço.
Com os olhos cheios de lágrimas, dona Nazaré foi repetindo quase que inconscientemente os gestos como a menina ia descrevendo. E ela, com os olhos molhados de lágrimas continuou:
- Depois de me abraçar demoradamente Ele foi saindo bem devagarinho, deu um gostoso beijo na minha testa e foi se afastando, quando estava quase perto da porta Ele fez um sinal de tchau e falou: – Diga pra sua mãe que Eu vou deixar a chave no vaso de flor. Ele ainda completou. – Gostei muito da flor. É a primeira vez que eu vejo lágrimas de Cristo em vaso. Adorei a idéia.
Claro, nenhuma das duas conseguiu achar palavras para manifestar a sua gratidão a Jesus, a única coisa que fizeram, foi buscar aquele vaso de lágrimas de Cristo, colocá-lo sobre a mesa, perto do rádio, beijá-lo com um carinho quase sacramental e olhando o pequeno crucifixo na parede fizeram chegar até o céu uma linda oração de louvor:
- Muito obrigado Senhor, viu, o Senhor achou direitinho. Eu não falei que era fácil? Brigada mesmo. Eu tinha certeza que podia contar com o Senhor.
                                                                                                                   Pe. Léo

Anjos Bons.


O povo baiano já definiu uma forma carinhosa de se dirigir a Ir. Dulce: Anjo Bom.
É bom lembrarmos que aqui é a Bahia de todos os Santos, também de todos os demônios.
Dulce foi uma pessoa mais contraditória que aparece à primeira vista. Dedicou-se de corpo e alma, com todas suas forças, para dar alguma dignidade aos que viviam e vivem na miséria em Salvador. Isso mesmo, a belíssima cidade ainda guarda pobreza em quantidade, mesmo que já não exista mais Alagados e tantas outras paisagens infames.
Nunca se preocupou de onde vinha o dinheiro para seu trabalho. Se necessário, pedia aos donos do poder. Por isso, eles fizeram questão de aproximar-se dela, para instrumentalizar sua imagem, mesmo que governassem a Bahia com mão de ferro e produzissem miséria.
Aparentemente apolítica, tornou-se um ícone da direita baiana e também da Igreja conservadora. Afinal, para muitos, é assim que um cristão deve servir aos pobres. Mas, ela era mais esperta do que os seus instrumentalizadores imaginavam. Quando necessário, foi rebelde, ocupando casas, levando doentes para ambientes onde não eram desejados, criando problemas dentro da congregação. Era acusada de preferir mais os  pobres e a rua que sua comunidade.
A Igreja teve outros anjos bons. D. Hélder sonhou com um milênio sem miséria. D. Luciano, Mauro Morelli e outros, seguindo o sonho de D. Hélder, criaram o “Mutirão pela Superação da Fome e da Miséria”, CNBB.
No campo a luta veio de forma organizada, em Pastorais Sociais, como a da Terra, dos Pescadores, além das urbanas como a Operária, do Menor, do Migrante, etc. A Pastoral da Criança salvou e salva milhões de crianças nesse país e no resto do mundo.
Aqui no sertão estamos conseguindo vencer a sede, a fome, a migração e tantas mazelas que afligiram gerações e gerações de nordestinos com a simples captação da água de chuva. As Pastorais são parte integrante desse esforço hercúleo.
Mas, falo também dos anjos sem religião. Por mais de trinta anos tivemos na CPT da Bahia Marta Pinto dos Anjos. Advogada, sem convicção religiosa. Quando íamos rezar um pai-nosso, segurava nossas mãos, abaixava a cabeça e silenciava. Conheci poucas pessoas tão dedicadas aos pobres do campo na Bahia como Marta. Aposentou-se, em seis meses faleceu vítima de câncer.
O que sempre chamou a atenção em Marta é que não precisa ser cristão, nem esperar pela vida eterna para se fazer uma verdadeira dedicação pela justiça e pela superação da miséria. Assim, existem milhares e milhões. Eles e elas estão nos movimentos sociais, mesmo dentro de certos governos.
Ir. Dulce é sim um anjo bom. Onde está uma pessoa em necessidade, ali está um universo.
Entretanto, pessoas como ela, assim como Teresa de Calcutá, surgem onde a miséria é abundante. E a miséria sobra onde a injustiça superabunda. Não vamos encontrar essas santas em Berlim ou Copenhague. Lá existe saúde pública que funciona, educação, enfim, uma política social onde são desnecessárias santas como elas.  Portanto, elas também são frutos de um contexto perverso.
Mas, a santidade do Anjo Bom é verdadeira, porque sua generosidade foi verdadeira.
O pior não é a opção assistencial – tantas vezes necessária -, é a indiferença.
                                                                                                                                     Roberto Malvezzi (Gogó)

Carta Sobre a Oração


Perguntas, porque rezar? Respondo-te, para viver. Porque, com efeito, para viver de verdade tens que rezar. Por quê? Porque para viver tens que amar. Uma vida sem amor não é vida. É solidão vazia, é cárcere e é tristeza. Só quem ama vive de verdade. E somente ama quem se sente amado, alcançado e transformado pelo amor. Assim, como a planta não pode florescer e dar seus frutos, se não recebe os raios do sol, também o coração humano não pode abrir-se à vida verdadeira e plena se não é alcançado pelo amor. Agora sim, o amor nasce e vive do encontro com o amor de Deus, o maior e mais verdadeiro de todos os amores possíveis; mais ainda: o amor que está mais além de qualquer definição que possamos dar e de todas nossas possibilidades. Ao rezar nos deixamos amar por Deus e nascemos ao amor. Portanto, quem ama vive no tempo e para a eternidade.
E quem não reza? Quem não reza corre o risco de morrer interiormente, porque cedo ou tarde lhe faltará o ar para respirar, o calor para viver, a luz para ver, o alimento para crescer e a alegria que dá sentido à existência. Me dizes: mas, eu não sei rezar? Me perguntas: como se reza? Te respondo: começa a dar um pouco do teu tempo a Deus. No começo não importará que esse tempo seja muito, mas que seja dado com fidelidade, cotidianamente, quando o sintas e quando não. Busca um lugar tranquilo, se possível tenha algum sinal que remeta à presença de Deus. Medita em silêncio, invoca ao Espírito Santo para que seja ele quem diga em ti: “Abbá, Pai”. Eleva a Deus teu coração, ainda que esteja confuso. Não tenhas medo de dizer-lhe tudo: tuas dificuldades e tua dor, teu pecado e tua incredulidade, e também tua rebelião e tua oposição, se assim te sentes.
Abandonando-se todo nas mãos de Deus, recorde que Ele é Pai-Mãe no amor, que todo te recebe, toda tua pessoa, todo te ilumina, todo te salva. Escuta seu silêncio. Não queira receber respostas rápidas. Persevera. Como o profeta Elias, caminha no deserto para o monte de Deus. E quando te aproximares dele, não o busque no vento, no trovão ou no fogo, em sinais de força ou de grandeza, mas na voz sutil do silêncio. Não pretendas possuí-lo, deixa, ao contrário, que passe por tua vida e por teu coração, que toque tua alma e se deixe contemplar por ti, embora sejas passivo desta ação.
Escuta a voz do seu silêncio. Escuta sua palavra de vida. Abre a Bíblia e medita com amor. Deixa que a palavra de Jesus fale ao coração de teu coração. Leia os salmos, onde encontrará expressado tudo o que querias dizer-lhe. Escuta os apóstolos e os profetas. Apaixone-se com a história dos patriarcas, do povo escolhido e da igreja nascente. Quando escutares a palavra de Deus, siga caminhando pelos atalhos do silêncio, desejando que o Espírito te una a Cristo, palavra eterna do Pai. No começo, poderá te parecer que o tempo é exagerado. Persevera com humildade, dando a Deus o tempo que puderes dar, mas, nunca menos do que estabeleceste poder dar-lhe cada dia. Verás que, pouco a pouco, tua fidelidade se verá premiada. E perceberás que, pouco a pouco, crescerá em ti o gosto pela oração: o que no início te parecia inalcançável, se tornará cada vez mais fácil e belo, perfeito. Compreenderás que o que conta não é obter respostas, mas, se por à disposição de Deus. E verás que tudo o que pressentes na oração pouco a pouco se irá transfigurando.
Quando fores rezar com o coração agitado, se perseverares, perceberás que mesmo rezando longamente não obterás respostas as tuas interrogações, mas elas vão derretendo-se como a neve ante o sol. E em teu coração irromperá uma grande paz: a paz de estar nas mãos de Deus e de deixar-te conduzir com docilidade por ele até o lugar que te preparou. Então, teu coração renovado poderá cantar um cântico novo, e o “Magnificat” de Maria estará espontaneamente em teus lábios e será cantado pela silenciosa eloquência de tuas obras.
Sem dúvida, não faltarão momentos de dificuldades. Às vezes não poderás calar o ruído que te rodeia e o que está em ti; às vezes sentirás o cansaço e até o desagrado de rezar; às vezes tua sensibilidade preferirá qualquer outra coisa a estar em oração frente a Deus, como se esse fosse só “tempo perdido”. Sentirás, finalmente, as tentações do maligno, que tratará de separar-te do Senhor, de distanciar-te da oração. Não temas. As mesmas provas que tu vives as experimentaram os santos, muito mais opressoras. Persevera, resiste e recorda que a única coisa que realmente podemos dar a Deus é a prova de nossa fidelidade. Com a perseverança salvarás teu coração e tua vida.
Chegará depois a hora da “noite escura”, quando tudo te parecerá árido ou inclusive absurdo nas coisas de Deus. Não temas. Este é o momento em que Deus luta junto a ti: remove todo o pecado na confissão humilde e sincera de tuas culpas e busca o perdão sacramental. Dê a Deus mais do seu tempo. Deixe que a noite dos sentidos e do espírito se converta para ti na hora da participação na paixão do Senhor. Neste ponto Jesus mesmo carregará a cruz contigo e te conduzirá consigo até a alegria da páscoa. Não te assombrará, então, descobrir quão amável é essa noite, já que a verás transformada para ti em noite de amor, inundada pela alegria da presciência do amado.
Não tenhas medo, portanto, das provas e das dificuldades da oração. Recorda somente que Deus é fiel e não permitirá nunca uma prova sem saída, não deixará nunca que sejas tentado sem dar-te força para suportar e vencer. Deixa-te amar por Deus. Como uma gota d’água que se evapora sob os raios do sol e sobe para voltar a terra como chuva fecunda ou orvalho consolador, deixa assim que teu ser seja esculpido por Deus, plasmado pelo amor das três pessoas divinas, absorvido e restituído à história como presente fecundo. Deixa que a oração faça crescer em ti a liberdade de todo medo, o valor e a audácia do amor, a fidelidade às pessoas que Deus te confiou e às situações nas quais te puseste, sem buscar evasões e consolos medíocres. Aprende, a rezar, a viver a paciência de esperar os tempos de Deus que não são os nossos, e a seguir seus caminhos, que tão pouco são os nossos.
Um dom especial, fruto da fidelidade na oração, será o amor pelos demais e o sentido de Igreja. Quanto mais rezes, maior misericórdia sentirás pelos demais, mais quererás ajudar a quem sofre, mais terás fome e sede de justiça para com todos, especialmente com os mais pobres e débeis, mais levarás em consideração os pecados dos outros para completar em ti o que falta à paixão de cristo. Ao rezar, sentirás como é belo estar na barca de Pedro, solidário, sustentado pela oração de todos, disposto aos demais com gratuidade, sem pedir nada em troca. Ao rezar sentirás crescer em ti a paixão pela unidade do corpo de Cristo de toda a família humana.
Ao rezar se aprende a rezar, e se gosta dos frutos do espírito que dão verdade e beleza à vida. Ao rezar, se transforma no amor; e a vida cobra sentido à perfeição que Deus quis. Ao rezar se adverte a urgência de levar o evangelho a todos, até os últimos confins da terra. Ao rezar se descobrem os infinitos dons do Amado e se aprende a dar-lhe graças por tudo. Ao rezar se vive. Ao rezar se ama, se louva.
Se tivesse, então, que te desejar o presente mais precioso, se quisesse pedi-lo a Deus para ti, não hesitaria em solicitar o dom da oração. Se o peço. E não hesito em pedir a Deus para mim. E parati. Que a paz de Nosso senhor Jesus Cristo, o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam contigo. E tu neles, porque ao rezar entrarás no coração de Deus, escondido com Cristo nele, envolvido em seu amor eterno, fiel e sempre novo. E já sabes que quem reza com Jesus e nele, quem reza a Jesus ou ao Pai ou invoca seu Espírito, não está rezando a um Deus genérico e distante. Desde o Pai, por meio de Jesus, graças ao Espírito, cada um receberá o dom perfeito, o mais oportuno, o que foi preparado desde sempre. É o presente que nos espera.
                                                                           
                                                                            
                                                                                                                                         Bruno Forte