Roxana Murdochowicz acaba de publicar Los adolescentes y las redes
sociales, livro onde esmiúça a relação de adolescentes e jovens com as chamadas
“novas” tecnologias. E adverte sobre os mitos e falsas crenças dos adultos. A
reportagem é de Soledad Vallejos e está publicada no jornal argentino
Página/12, 26-03-2012. A tradução é do Cepat.
Não existe um mundo virtual e
outro real. A ideia de que um computador isola fala mais dos adultos pouco
familiarizados com a internet do que efetivamente acontece quando um
adolescente se conecta à rede. Quem diz isso é Roxana Morduchowicz,
especialista em educação, em Los adolescentes y las redes sociales. La
construcción de la identidad juvenil en Internet (Ed. FCE). Muito longe de qualquer
imagem de meninas e meninos que consomem de maneira passiva conteúdos de
diferentes sítios, Morduchowicz coloca que a entrada na internet, que não é
nova nem alheia, mas perfeitamente natural porque para as novas gerações sempre
estiveram aí, converte a garotada em produtores ativos: leem conteúdos, sim,
mas também produzem os próprios, interagem com seus pares em situações de
comunicação horizontais e ensaiam, em suas intervenções, novos modos de algo
tão tradicional como diferentes formas de desenvolver e apresentar suas
próprias identidades.
Aqueles que hoje são crianças e
adolescentes nasceram em um contexto tecnológico em pleno desenvolvimento, mas
ao mesmo tempo dotado de certa estabilidade. Controle remoto, celular,
internet, TV a cabo e de acessibilidade quase permanente, são coisas que sempre
existiram em seu mundo, ou que ao menos chegaram tão cedo em suas vidas que seu
aparecimento não implicou irrupção alguma. Por isso, diz Morduchowicz, os
adultos não apenas deveriam “conhecer os consumos culturais da garotada, de que
maneira usam a tecnologia e para quê”, mas também compreender que as
tecnologias já não são novas. “Usar essa palavra, dizer ‘novas tecnologias’, só
revela a idade dos adultos. Já não há meios tradicionais e novos. Todos coexistem”.
Por que pensar a relação entre adolescentes e redes sociais?
É inevitável, porque hoje a
geração que tem menos de 18 anos vive entre telas. As três mais importantes na
vida dos adolescentes são a televisão, o celular e o computador. Hoje a
identidade juvenil não pode ser entendida caso não se entende a relação que os
meninos e meninas têm com as telas, e dentre elas a que mais está crescendo nos
últimos anos é o computador. E a isso é preciso acrescentar que o acesso à
internet se faz cada vez mais acessível, quer seja através de netbooks ou
celulares, com os quais a garotada está cada vez mais conectada. Meu interesse
é entender a identidade dos adolescentes. E hoje, se não se analisa o vínculo
que eles têm com a internet, perde-se uma parte fundamental de sua identidade.
No livro você sustenta que, em
vez de se isolar, o computador se torna fundamental para a comunicação de
crianças e adolescentes com seus pares.
Claro, é que o principal uso é
comunicativo. Em geral, quando os pais compram um computador ou o conectam à
internet, suas expectativas são educativas.
Em um sentido tradicional?
Sim, como algo do estilo “quero
que o ajude na escola”, como uma ferramenta.
Um uso unidirecional?
Claro. Mas todas as pesquisas e
os estudos mostram que o principal uso que as crianças fazem é comunicativo.
Basicamente, se dedicam a chatear, a programas de mensagens instantâneas ou
através de alguma rede social. Uma das que mais está crescendo, uma das mais
populares, é o Facebook. Deveria ser somente para maiores de 14 anos, porque é
isso que o sítio permite legalmente, mas também está sendo muito usado por
pré-adolescentes, porque falsificam a idade e constroem seu perfil. Em todo o
caso, entre os adolescentes a presença em redes sociais é alta: 80% estão em uma.
Esse número se modifica segundo as classes socioeconômicas?
Não reconhece fronteiras sociais.
A presença já atravessa todas as classes. Hoje, para um menino, não estar no
Facebook, como eles dizem, é não existir. Mas isso tem a ver com a construção da
identidade.
É um espaço de socialização, como
em outra época foi um bar?
Claro, o que para os adultos
atuais era ver-se em um café, agora é cruzar-se no Facebook. Antes, a
visibilidade passava pelo mundo, digamos, real: um café, uma esquina. Agora,
para garotada isso acontece em um mundo virtual. Mas atenção, porque para a garotada
o mundo on line e off line não são antagônicos: há continuidade. Eles podem
estar em sua casa, falando com a mãe e ao mesmo tempo chateando em uma janela
com seus amigos, navegando em busca de informações ou escutando a sua banda
preferida. Eles abrem e fecham janelas virtuais como os adultos abrem e fecham
janelas reais.
Os universos do on line e do off line coexistem, se superpõem.
É uma geração que em todo o mundo
se chama multimídia, mas não apenas pela oferta diversificada de meios e
tecnologia, mas fundamentalmente por seus usos simultâneos. Enquanto veem
televisão, escutam música e também falam pelo celular, ou fazem a tarefa de
casa. Não são atividades excludentes. Também se superpõem.
A atitude e os usos são os mesmos para meninas e meninos?
Poderíamos dizer que as meninas
se comunicam mais, mas as diferenças entre meninas e meninos são mínimas. Estar
no Facebook não apenas não reconhece diferenças sociais, mas tampouco de
gênero. Isso demonstra também que a presença das telas na vida da garotada não
implica um isolamento ou em anular sua vida social. Pelo contrário, as telas e
a tecnologia produziram uma nova forma de sociabilidade juvenil. Antes, como
dizia, no café; agora, aqui. Que o principal uso seja o comunicativo varre com
os prejuízos dos adultos, que acreditamos que pela irrupção das telas a
garotada está mais isolada e menos conectada com seu entorno social. São novos
suportes para o social. Esta é a primeira geração que dispõe de variedade de
suportes. Quando eu era menina, havia apenas o telefone fixo. E controlado,
porque era caro. Agora, a criançada tem telefone fixo, telefone celular para
falar ou para mandar mensagens, o blog, o chat, as redes sociais. Ao todo, eles
têm cinco ou seis suportes, modos de se comunicar. Isso demonstra que estão
muito longe de ser uma geração isolada. Pelo contrário.
São os adultos que acreditam
isso, mas por sua própria distância, voluntária, com a tecnologia. Ao
contrário, a criançada tem familiaridade com os dispositivos, não teme usá-los.
Como em casa, a garotada, quer
sejam adolescentes ou menores, costumam ser aqueles que mais manejo instrumento
têm do computador, há certos medos nos adultos, sejam mães, pais ou docentes.
Os pequenos têm manejo instrumental. Apenas. Ao contrário, o critério, o
sentido da experiência, segue sendo algo que um adulto tem, e que por isso deve
guiar o uso, o manejo do instrumento, desse computador. Os adultos devem
conhecer os consumos culturais da garotada, de que maneira usa o computador,
para quê. Por mais que tenhamos filtros no computador, nada substitui um bom
diálogo. Mas claro: conhecer seus consumos, para que os usam, não o que dizer
no chat.
Seriam como os cuidados clássicos de “não falar com estranhos”.
A mesma precaução da vida real na
vida virtual. Algumas precauções têm a ver com o uso da tecnologia. Assim como
a garotada não sai sozinha às duas da manhã pela rua obscura, também é preciso
saber que a internet é um espaço público, e quando eles transferem para ali
detalhes de sua intimidade, podem ser vistos por qualquer um. É como falar aos
gritos em uma praça: são ouvidos.
No livro, relaciona essa falta de
compreensão dos limites da intimidade com a construção da identidade, com algo
que têm que adquirir.
Sobretudo os adolescentes. Para
eles, ser popular é um valor muito importante, ter muitos amigos nas redes
sociais. Então, o conceito de vida privada cede diante do desejo de ser
popular. Se para serem populares têm que contar em que escola estuda ou dar seu
nome verdadeiro, fazem-no. A prioridade é ter amigos. E a garotada não mede o
alcance da internet.