quinta-feira, 15 de março de 2012

O pobre: critério para profecia

O POBRE: CRITÉRIO PARA A PROFECIA ( José Comblin)
O presente texto é fruto da reflexão do artigo do teólogo José Comblin: o pobre: critério para a profecia, presente no livro: “a opção pelos pobres no século XXI” organizado por Pedro A. Ribeiro de Oliveira. Neste artigo, nosso autor aponta a importância que se tem uma leitura da Bíblia a partir dela mesma e não a partir da escolástica. É a conhecida teologia da Bíblia e da Igreja primitiva.

Este modelo de leitura e interpretação da Sagrada Escritura ganhou força com o Concílio Vaticano II, que autorizou uma teologia indutiva. A teologia da libertação, como nos lembra Comblin, é um dos frutos dessa nova tolerância.
Sabemos que nas faculdades de teologia e nos seminários ensinam-se dois tipos de  se teologar: um é a teologia  a partir da Bíblia e da História do Cristianismo, a Indutiva, e a o outro é a teologia Escolástica dos grande autores medievais, a teologia dedutiva.
José Comblin, aponta que apesar das aulas de exegese ou alunos ainda insistem em fazer uma leitura da Bíblia  a partir da teologia escolástica e não a partir dela mesma. Mas tudo isso é fruto da má compreensão do que foi o Vaticano II para a vida da Igreja.
Diante do que nos apresenta os evangelhos, notamos que Jesus não quis fundar uma religião. Ele não se opôs à prática religiosa do povo e nem propôs uma nova religião. É evidente que ele quis ser fiel ao verdadeiro Israel e por isso esvaziou o sistema religioso.
Sabemos que Jesus veio não somente para anunciar, mas para inaugurar um mundo novo. É isto que Jesus chamava de fé, a crença neste mundo novo. O anúncio de Jesus não se refere à religião, mas ao Reino de Deus. Este por sua vez é a libertação do reino da dominação, da injustiça, da opressão. É um mundo renovado, uma nova criação de um mundo de justiça e de fraternidade. É na verdade uma denúncia do Império Romano.
Depois da morte de Jesus e dos apóstolos, bem mais tarde, os discípulos, os que não tinham conhecido Jesus, começaram a querer combinar a mensagem de Jesus com uma religião. Esta formação de uma religião a partir da mensagem de Jesus durou mais de um século.
Diante do tema desta nossa reflexão, o pobre: critério para a profecia, podemos definir profecia como denuncia da corrupção, ou melhor, os profetas são pessoas que, enviadas por Deus e por nenhuma autoridade humana, sem nenhum papel oficial na sociedade, denunciam a corrupção do povo de Israel e em particular das suas elites.
A partir desta definição do profeta podemos dizer que eles são os defensores dos pobres. O seu Deus quer justiça e misericórdia. Os pobres são os sinais que carregam as promessas feitas a Abraão. Estes são os membros do verdadeiro povo de Deus, encarregados de preparar a realização da promessa, portanto, oprimir a eles é abandonar o projeto de Deus e fazer de uma religião o centro da vida social e pessoal.
Jesus foi profeta e é o modelo definitivo de todos os profetas futuros. Dirigiu-se para os pobres e fez todos os sinais que anunciavam a sua futura libertação. Iniciou o movimento de libertação sendo pobre no meio dos pobres, socorrendo os necessitados, os doentes, acolhendo os pecadores. Lançou um movimento de esperança no meio dos oprimidos e ensinando aos discípulos como devia ser o mundo no Reino de Deus.
Tudo isso só foi possível por que Jesus fez oposição a todo o sistema religioso de sua época: os sacerdotes, os doutores da lei, os poderosos chefes de grandes famílias. Ele denunciou a falsidade da religião que estes tinham instalado. Contudo, não sobreviveu por muito tempo. É assim que acontece com os profetas que se atrevem a levantar a voz para criticar os que mantêm o sistema de dominação em nome da religião. Mas, onde predomina o Deus dos Evangelhos, os pobres terão um lugar privilegiado.
Ao olharmos para o Evangelho de Marcos somos tentados a dizer que esta obra é uma biografia de Jesus, mas não, esta é uma obra de defesa do verdadeiro Jesus. Este evangelho explicita claramente que a mensagem do Reio é para os pobres, os pecadores, os oprimidos. Ele é para os pobres que na tradição judaica estes eram marginalizados e condenados como pecadores.
No século segundo temos a influencia dos povos pagãos que passaram a fazer parte do povo cristão, principalmente os vindos de seitas gnósticas, o contato com estas pessoas fez com que o cristianismo se tornasse uma religião espiritualizada e com isso a pobreza perdeu seu significado real, a falta do necessário para a vida.
O Evangelho, neste período, não foi esquecido, mas em muitos cristãos os atos religiosos, atos simbólicos, tomaram o lugar dos atos reais de formação e crescimento do Reino de Deus no mundo real. Com isso o movimento monástico se apresenta como protesto contra a corrupção da Igreja, a volta  ao Evangelho na sua radicalidade, por isso a escolha de vida de pobreza absoluta.
Depois da aliança feita com Roma, o Cristianismo passou a ser religião oficial do Império Romano. E mesmo depois da queda do Império os chefes impuseram a religião a todos os membros da tribo. Tudo gerou uma grande confusão na vida das pessoas que tinham suas divindades. O reflexo de tudo isso que os cultos às forças da natureza foi substituída pelo culto aos santos. Passado um tempo temos a entrada do movimento penitencial que durou até o século XX.
Diante do que foi exposto é importante lembra que na história da cristandade sempre tivemos esta tensão entre uma tradição profética e uma tradição evangélica que procura lembrar o Deus verdadeiro revelado na vida de Jesus. Isso é expresso nas revoltas feitas pelos camponeses e pela nova classe de pobre que surgiu no século XIX, os operários. Que está claro para todos nós é que, qualquer intervenção na libertação dos pobres é vista como algo eventualmente tolerável, mas secundário, e não afeta a natureza do Cristianismo.
Nos encaminhando para o final, desta nossa reflexão. Podemos afirmar, portanto, que a mensagem de Jesus sobre o Reino de Deus não foi esquecida. Dentro dela os pobres ocupam o lugar central, isto é, o lugar de maior visibilidade A criação de um mundo novo tem como centro a libertação de todos os oprimidos. Por isso Jesus busca os oprimidos e lhes anuncia com gestos e com palavras a salvação, não no céu, mas aqui na terra. O amor do Pai consiste em libertar os oprimidos. Não é um amor puramente espiritual ou interior, mas um amor real dentro da vida terrestre, tal como é na sociedade atual. A maior demonstração deste amor é a própria vida de Jesus. Ele nasceu e cresceu no meio dos pobres, falou para os pobres, curou os pobres, escolheu os seus apóstolos entre os pobres, morreu como o mais pobre despojado de tudo o que é humano.
Por ser opção pelos pobres a vida de Jesus foi sempre conflitiva. Mas ele escolheu os pobres porque estes sempre foram oprimidos e o Reino de Deus era o fim da opressão e o advento da justiça e do perdão das dívidas. Isto é prova da experiência que o Pai fez de uma vida  humana no meio dos oprimidos. Em Jesus Deus descobriu o que é ser oprimido, rejeitado, maltratado, condenado e crucificado.
É importante lembrar que Deus se revela como amor, mas esse amor é historicamente orientado. Não se trata de um amor uniforme, igual para todos os seres humanos. Mas, o pai também é conflitivo. A sua mensagem básica era sumamente conflitiva. Anunciou a proximidade do Reino de Deus. Isso já era uma ameaça do Império Romano. Contudo, o conflitivo básico era, como ainda é, o conflito entre os ricos e os pobres. Os ricos são os que tem poder, os que podem impor a sua vontade aos outros.
Deste modo o Pai não pediu nenhum culto, não queria impor leis, não fundou nenhuma instituição, não pedia orações. O mundo novo seria um dom gratuito. Mas seria também uma tarefa. O Pai queria libertar o seu povo do pecado, gratuitamente. O pecado era a dominação dos ricos sobre os pobres, a humilhação, a marginalização permanente dos pobres. Era a injustiça fundamental, o pecado raiz de todo os pecados.
Portanto, o projeto do Pai era basicamente político, mas uma política global, total, uma nova sociedade sem dominação. Por conseguinte, o projeto do Pai é realizar neste mundo uma humanidade de justiça e solidariedade, uma humanidade de amor. E nesta figura de Deus os pobres ocupam um lugar central tudo gira ao redor deles. A história humana é objeto da revelação de Deus, e é nessa história que podemos conhecer o verdadeiro Deus, nosso Pai.
Por fim, o pobre: critério para a profecia deve ser também a nossa opção fundamental como mensagem evangélica. Por que foram eles escolhidos por Deus Pai e seu Filho Jesus de Nazaré. Eles devem ser os protagonistas da mensagem de Jesus. Pois foi pensando neles que o Senhor fez a Promessa que deve se realizar neste mundo real, a implantação do Reino de Deus.

BIBLIOGRAFIA
O POBRE: CRITÉRIO PARA A PROFECIA . José Comblin. In: A opção pelos pobres no século XXI. Pedro A. Ribeiro de Oliveira (Organizador). São Paulo: Paulinas 2011.

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