O
POBRE: CRITÉRIO PARA A PROFECIA ( José Comblin)
O
presente texto é fruto da reflexão do artigo do teólogo José Comblin: o pobre:
critério para a profecia, presente no livro: “a opção pelos pobres no século XXI”
organizado por Pedro A. Ribeiro de Oliveira. Neste artigo, nosso autor aponta
a importância que se tem uma leitura da Bíblia a partir dela mesma e não a
partir da escolástica. É a conhecida teologia da Bíblia e da Igreja primitiva.
Este
modelo de leitura e interpretação da Sagrada Escritura ganhou força com o
Concílio Vaticano II, que autorizou uma teologia indutiva. A teologia da
libertação, como nos lembra Comblin, é um dos frutos dessa nova tolerância.
Sabemos
que nas faculdades de teologia e nos seminários ensinam-se dois tipos de se teologar: um é a teologia a partir da Bíblia e da História do
Cristianismo, a Indutiva, e a o outro é a teologia Escolástica dos grande
autores medievais, a teologia dedutiva.
José
Comblin, aponta que apesar das aulas de exegese ou alunos ainda insistem em
fazer uma leitura da Bíblia a partir da
teologia escolástica e não a partir dela mesma. Mas tudo isso é fruto da má
compreensão do que foi o Vaticano II para a vida da Igreja.
Diante
do que nos apresenta os evangelhos, notamos que Jesus não quis fundar uma religião.
Ele não se opôs à prática religiosa do povo e nem propôs uma nova religião. É
evidente que ele quis ser fiel ao verdadeiro Israel e por isso esvaziou o
sistema religioso.
Sabemos
que Jesus veio não somente para anunciar, mas para inaugurar um mundo novo. É
isto que Jesus chamava de fé, a crença neste mundo novo. O anúncio de Jesus não
se refere à religião, mas ao Reino de Deus. Este por sua vez é a libertação do
reino da dominação, da injustiça, da opressão. É um mundo renovado, uma nova
criação de um mundo de justiça e de fraternidade. É na verdade uma denúncia do
Império Romano.
Depois
da morte de Jesus e dos apóstolos, bem mais tarde, os discípulos, os que não
tinham conhecido Jesus, começaram a querer combinar a mensagem de Jesus com uma
religião. Esta formação de uma religião a partir da mensagem de Jesus durou
mais de um século.
Diante
do tema desta nossa reflexão, o pobre: critério para a profecia,
podemos definir profecia como denuncia da corrupção, ou melhor, os profetas são
pessoas que, enviadas por Deus e por nenhuma autoridade humana, sem nenhum
papel oficial na sociedade, denunciam a corrupção do povo de Israel e em
particular das suas elites.
A
partir desta definição do profeta podemos dizer que eles são os defensores dos
pobres. O seu Deus quer justiça e misericórdia. Os pobres são os sinais que
carregam as promessas feitas a Abraão. Estes são os membros do verdadeiro povo
de Deus, encarregados de preparar a realização da promessa, portanto, oprimir a
eles é abandonar o projeto de Deus e fazer de uma religião o centro da vida
social e pessoal.
Jesus
foi profeta e é o modelo definitivo de todos os profetas futuros. Dirigiu-se
para os pobres e fez todos os sinais que anunciavam a sua futura libertação.
Iniciou o movimento de libertação sendo pobre no meio dos pobres, socorrendo os
necessitados, os doentes, acolhendo os pecadores. Lançou um movimento de
esperança no meio dos oprimidos e ensinando aos discípulos como devia ser o
mundo no Reino de Deus.
Tudo
isso só foi possível por que Jesus fez oposição a todo o sistema religioso de
sua época: os sacerdotes, os doutores da lei, os poderosos chefes de grandes
famílias. Ele denunciou a falsidade da religião que estes tinham instalado.
Contudo, não sobreviveu por muito tempo. É assim que acontece com os profetas
que se atrevem a levantar a voz para criticar os que mantêm o sistema de
dominação em nome da religião. Mas, onde predomina o Deus dos Evangelhos, os
pobres terão um lugar privilegiado.
Ao
olharmos para o Evangelho de Marcos somos tentados a dizer que esta obra é uma
biografia de Jesus, mas não, esta é uma obra de defesa do verdadeiro Jesus.
Este evangelho explicita claramente que a mensagem do Reio é para os pobres, os
pecadores, os oprimidos. Ele é para os pobres que na tradição judaica estes
eram marginalizados e condenados como pecadores.
No
século segundo temos a influencia dos povos pagãos que passaram a fazer parte
do povo cristão, principalmente os vindos de seitas gnósticas, o contato com
estas pessoas fez com que o cristianismo se tornasse uma religião
espiritualizada e com isso a pobreza perdeu seu significado real, a falta do
necessário para a vida.
O
Evangelho, neste período, não foi esquecido, mas em muitos cristãos os atos
religiosos, atos simbólicos, tomaram o lugar dos atos reais de formação e
crescimento do Reino de Deus no mundo real. Com isso o movimento monástico se
apresenta como protesto contra a corrupção da Igreja, a volta ao Evangelho na sua radicalidade, por isso a
escolha de vida de pobreza absoluta.
Depois
da aliança feita com Roma, o Cristianismo passou a ser religião oficial do Império
Romano. E mesmo depois da queda do Império os chefes impuseram a religião a
todos os membros da tribo. Tudo gerou uma grande confusão na vida das pessoas
que tinham suas divindades. O reflexo de tudo isso que os cultos às forças da
natureza foi substituída pelo culto aos santos. Passado um tempo temos a
entrada do movimento penitencial que durou até o século XX.
Diante
do que foi exposto é importante lembra que na história da cristandade sempre
tivemos esta tensão entre uma tradição profética e uma tradição evangélica que
procura lembrar o Deus verdadeiro revelado na vida de Jesus. Isso é expresso
nas revoltas feitas pelos camponeses e pela nova classe de pobre que surgiu no
século XIX, os operários. Que está claro para todos nós é que, qualquer
intervenção na libertação dos pobres é vista como algo eventualmente tolerável,
mas secundário, e não afeta a natureza do Cristianismo.
Nos
encaminhando para o final, desta nossa reflexão. Podemos afirmar, portanto, que
a mensagem de Jesus sobre o Reino de Deus não foi esquecida. Dentro dela os
pobres ocupam o lugar central, isto é, o lugar de maior visibilidade A criação
de um mundo novo tem como centro a libertação de todos os oprimidos. Por isso
Jesus busca os oprimidos e lhes anuncia com gestos e com palavras a salvação,
não no céu, mas aqui na terra. O amor do Pai consiste em libertar os oprimidos.
Não é um amor puramente espiritual ou interior, mas um amor real dentro da vida
terrestre, tal como é na sociedade atual. A maior demonstração deste amor é a
própria vida de Jesus. Ele nasceu e cresceu no meio dos pobres, falou para os
pobres, curou os pobres, escolheu os seus apóstolos entre os pobres, morreu
como o mais pobre despojado de tudo o que é humano.
Por
ser opção pelos pobres a vida de Jesus foi sempre conflitiva. Mas ele escolheu
os pobres porque estes sempre foram oprimidos e o Reino de Deus era o fim da
opressão e o advento da justiça e do perdão das dívidas. Isto é prova da
experiência que o Pai fez de uma vida
humana no meio dos oprimidos. Em Jesus Deus descobriu o que é ser
oprimido, rejeitado, maltratado, condenado e crucificado.
É importante lembrar
que Deus se revela como amor, mas esse amor é historicamente orientado. Não se
trata de um amor uniforme, igual para todos os seres humanos. Mas, o pai também
é conflitivo. A sua mensagem básica era sumamente conflitiva. Anunciou a
proximidade do Reino de Deus. Isso já era uma ameaça do Império Romano.
Contudo, o conflitivo básico era, como ainda é, o conflito entre os ricos e os
pobres. Os ricos são os que tem poder, os que podem impor a sua vontade aos
outros.
Deste
modo o Pai não pediu nenhum culto, não queria impor leis, não fundou nenhuma
instituição, não pedia orações. O mundo novo seria um dom gratuito. Mas seria
também uma tarefa. O Pai queria libertar o seu povo do pecado, gratuitamente. O
pecado era a dominação dos ricos sobre os pobres, a humilhação, a
marginalização permanente dos pobres. Era a injustiça fundamental, o pecado
raiz de todo os pecados.
Portanto,
o projeto do Pai era basicamente político, mas uma política global, total, uma
nova sociedade sem dominação. Por conseguinte, o projeto do Pai é realizar
neste mundo uma humanidade de justiça e solidariedade, uma humanidade de amor.
E nesta figura de Deus os pobres ocupam um lugar central tudo gira ao redor
deles. A história humana é objeto da revelação de Deus, e é nessa história que
podemos conhecer o verdadeiro Deus, nosso Pai.
Por
fim, o pobre: critério para a profecia deve ser também a nossa opção
fundamental como mensagem evangélica. Por que foram eles escolhidos por Deus
Pai e seu Filho Jesus de Nazaré. Eles devem ser os protagonistas da mensagem de
Jesus. Pois foi pensando neles que o Senhor fez a Promessa que deve se realizar
neste mundo real, a implantação do Reino de Deus.
BIBLIOGRAFIA
O
POBRE: CRITÉRIO PARA A PROFECIA . José Comblin. In: A opção pelos pobres no século XXI.
Pedro A. Ribeiro de Oliveira (Organizador). São Paulo: Paulinas 2011.
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