quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Marta e Maria: acolher Jesus, acolher o irmão, na escuta e no serviço!


Marta e Maria: acolher Jesus, acolher o irmão, na escuta e no serviço.
( Lc 10, 38-42)
“Enquanto caminhava, Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e ficou escutando a sua palavra. Marta estava ocupada com muitos afazeres. Aproximou-se e falou: Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha ajudar-me! O Senhor, porém, respondeu: Marta, Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas; porém, uma só coisa é necessária, Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada.”

Colocação do Texto:

MARTA E MARIA: acolher Jesus, acolher o irmão, na escuta e no serviço.
A cena evangélica de Jesus em casa de Marta e Maria ( Lc 10, 38-42) tem fascinada os cristãos, ao longo dos séculos. Na interpretação tradicional, Marta representa a “ Vida ativa” e Maria a “vida contemplativa”. Esta última é superior à vida ativa, porque “ Maria escolheu a melhor parte”. O ideal, porém, seria harmonizar as duas atitudes. O serviço de Marta pode relacionar-se com o mandamento do Amor ao próximo ( Lc 10, 29-37), enquanto a atitude de escuta de Maria está relacionada com o ensinamento sobre a oração ( Lc 11, 1-13).
A vida ativa e a vida contemplativa
A história a recordar, aqui, dificilmente poderá ser contada em menos palavras que o próprio texto: Jesus, a caminho de Jerusalém, entra numa aldeia. Marta o recebe em sua casa. Sua irmã, Maria, sentada aos pés do Senhor, escuta suas palavras. Marta atarefada, queixa-se de sua irmã: “Dize-lhe que me ajude, Senhor”. Jesus responde: “Marta, Marta...Uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte” (Lc 10,38-42). A casa de Marta e Maria, é um lugar de encontro e amizade, não é para Jesus meta ou fim de viagem, mas apenas ponto de apoio, restaurador de energias físicas e afetivas.
Concretamente o texto de Lucas testemunha uma mudança na visão da mulher no seguimento de Jesus. Enquanto Marta ocupa-se das “tarefas caseiras”, tipicamente femininas, na sociedade patriarcal, Maria tem coragem de assumir a atitude própria de um discípulo: sentada aos pés de Jesus, escuta a palavra, tornando-se assim discípula. Pretendemos aqui apenas fazer uma leitura espiritual do episódio de Marta e Maria.
No primeiro momento, contemplamos Jesus. O texto não chama pelo nome, mas pelo título Senhor. Ele é sem dúvida o personagem central, o protagonista da cena de Betânia. Marta o recebe em sua casa. Maria escuta suas palavras. As duas irmãs são diferentes entre si. Maria parece ser mais nova e mais tímida que Marta. Esta tem um gênio mais vivo e extrovertido. Jesus tem um afeto todo especial para com cada uma delas. Entre as possíveis etimologias do nome Maria, está o significado de “amada”. Certamente Maria se sente amada por Jesus, e Marta também ( Jo 11, 5). Por sua vez, aquele que não tinha onde repousar a cabeça (Lc 9, 58), em Betânia, sente-se “em casa”, acolhido por estas duas mulheres.
Nesta, como em outras muitas cenas da vida pública do Senhor, admiramos a liberdade de Jesus, frente aos rígidos costumes da cultura judaica da época. No tempo de Jesus, um homem não podia entrar em casa de duas mulheres, aparentemente sozinhas. Nem aos rabinos aceitavam que as mulheres se sentassem aos seus pés. Como discípulas.
À liberdade de Jesus corresponde confiança e o afeto manifestado pelas duas irmãs de Betânia. A hospitalidade, bela virtude humana e cristã, hoje, parece estar mais ameaçada pela mudança dos tempos, a agitação da vida, a violência, etc. Mas um de nossos teólogos garante que a Igreja do próximo século reaprenderá a ser “mestra da hospitalidade”, para todas as pessoas para cada pessoa, em sua individualidade única e irrepetível.
Conversa franca com o Senhor, Eu e  Jesus.
Neste momento, o episódio de Marta e Maria poderá criar o clima adequado para uma conversa franca com o Senhor. Como Saulo, na estrada de Damasco, “Que devo fazer Senhor?” (At 22, 10). E , como Zaqueu, deverá estar disposto a pagar todas as suas dívidas, para hospedar na sua casa.
Visitar alguém, gratuita e desinteressadamente, é demonstrar que esse alguém é importante para nós. As pessoas não precisam apenas de pão, saúde trabalho, dinheiro... precisam também de atenção, amizade, valorização. Visitando-as Jesus mostra a Marta e Maria que elas são importantes para Ele. O olhar de Jesus dignifica as duas irmãs como pessoas, como seres humanos necessitados de afeto. Só de visita-las e olhá-las com carinho, Jesus as faz mais bonitas. Pudéssemos nós olhar sempre os outros/as assim, com o olhar de Jesus!
A vista de Jesus é fonte de alegria e crescimento humano para as duas irmãs de Lázaro. Maria se torna mais contemplativa, porque se sente amada por Jesus. Marta, repreendida e não menos amada, não deixará de ser ativa, mas crescerá no seu entusiasmo pela pessoa e pela missão de Jesus.
O importante não é saber quem ama mais a Jesus, Marta ou Maria. O essencial é que o Senhor ama as duas. Como na parábola do Filho Pródigo, o amor do Pai é maior do que as diferenças entre os dois irmãos, assim também, aqui, o amor de Jesus é maior que as diferenças entre Marta e Maria. Sentiria Marta ciúmes da irmã, o seria Maria quem invejaria as boas qualidades de Marta? Basta saber que Jesus amava muito Marta, à sua irmã Maria e a Lázaro ( Jo 11,5).
Maria de Betânia
Neste ponto, poderíamos ver Maria de Betânia. Espelhado no seu olhar, encontraremos o amor do seu amigo Jesus. Se Maria tivesse escrito ou narrado este episódio, provavelmente ela se chamaria “a discípula que Jesus amava”. No relato de Lucas, ela ocupa uma posição privilegiada, “sentada aos pés do Senhor”. Tal atitude era característica dos discípulos, diante do seu mestre (At 22,3). À revelia dos costumes da época, Jesus aceita e louva esta atitude, inusitada numa mulher.
Maria de Betânia nos é apresentada como pessoa “calma e contemplativa”, aparentemente inativa. O texto de Lucas não nos refere nenhuma palavra dela. O que poderia falar, na presença do Senhor? O que Maria quer é não perder nenhuma das palavras que saem da boca de Jesus. Ela não fala, porque está inteiramente concentrada na escuta da Palavra.
Santa Teresa dizia que Maria “já tinha feito o oficio de Marta, quando serviu o Senhor, lavando-lhes os pés e enxugando-os com os cabelos”. A santa identifica Maria de Betânia com a pecadora ( Lc 7, 37-38). Tal identificação carece de fundamento. Mas o quarto evangelho conta que Maria de Betânia fez o mesmo, em situação a da pecadora: ungiu os pés de Jesus com perfume muito caro e enxugou com os cabelos (Jo 12,1-8). Mulher apaixonada exprime seu amor em gestos, mais que em palavras. Discípula humilde antecipa-se à recomendação de Jesus na Última Ceia, quando pedirá aos discípulos que lavem os pés um dos outros. O quarto evangelista apresenta, pois, Maria como a discípula amada que soube crer e amar, em contraste com a infidelidade de Judas Iscariotes.
Maria “escutava a palavra” do Senhor.
O tema é importante na teologia de Lucas (Lc e At). Dupont relaciona a atitude de Maria de Betânia com a condição daqueles que consagram seu tempo e as suas forças ao estudo da palavra de Deus. Evoca o episódio narrado em At 6, 1-6, onde constatamos a importância que os primeiros cristãos davam ao serviço da palavra. Ao primado da palavra, função própria dos apóstolos, corresponde a um primado da escuta da palavra da parte dos fiéis. “É pela escuta da Palavra que a fé dos cristãos vive e se desenvolve, levando os crentes a se porem a serviço dos desamparados”. Meio século mais tarde, quando Lucas escreve seu evangelho, o problema da relação entre escuta da Palavra de Deus e o serviço dos outros, especialmente dos mais pobres continuava atual.
“Maria escolheu a melhor parte”
Qual é a parte é a parte de Maria, que não lhe será tirada? A parte de Maria é escutar a palavra de Jesus. Na linguagem dos rabinos, a parte privilegiada é a dos homens que permanecem na casa de estudo para estudarem a Tora.
Nas sinagogas tradicionais, as mulheres judias não participavam da leitura da Tora, reservada aos homens. Elas assistem ao oficio sinagogal em recinto á parte, reservado para elas. Quando a palavra do Senhor se manifestava raramente em Israel, Deus escolheu o menino Samuel para falar ao povo. Agora, na plenitude dos tempos, a própria Palavra de Deus, feita homem, quer dirigir-se a esta mulher humilde, chamada Maria, como a virgem de Nazaré.
Certamente, a palavra que Maria escutava a levará a agir em favor dos outros, já vimos como ela manifestou seu amor, resolutamente, seu amor a Jesus (Jo 12, 1-8). A própria Santa Teresa, comentando Lc 10, 38-42, escreve: “apreciemos a oração e ocupemo-nos dela, não para nos deleitar, mas para ter forças para servir”, trabalhar pelo Senhor, ao serviço dos irmãos e das irmãs é consequência indispensável da união íntima com Ele.
Marta de Betânia.
Neste ponto, queremos, ver, escutar, e considerar a pessoa de Marta. Sua personalidade contrasta e complementa a de sua irmã Maria. Marta, nome que significa senhora, é mulher trabalhadora, pratica e cheia de vitalidade. Pensa em tudo, está atenta a tudo, ocupa-se de tudo. É o tipo de pessoa que toda empresa gostaria de ter entre seus funcionários. Não teria muita dificuldade de arranjar um bom marido, embora Lucas ignora se era casada, solteira ou viúva. O que o texto dá a entender é que Marta era a dona da casa. Como boa dona de casa Marta sente-se puxada de todos os lados, com os afazeres da casa. Então se queixa com Jesus: Senhor não te importa que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha me ajudar! (Lc 10, 40). A resposta de Jesus tem um ar de repreensão, mas não exclui a amizade, antes a supõe. Jesus tinha muito amor a Marta, diz Jo 11, 5. O diálogo entre eles, recolhido por Lucas, só é possível em clima de confiança.
Marta se queixa com espontaneidade. E Jesus responde com carinho: Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada com muitas coisas (Lc 10, 41). Uma só coisa é necessária.
Mas, por que Jesus corrigiu Marta, tão amiga dele? O que Jesus que enfatizar na sua maneira radical de falar, é a necessidade, a urgência de dar prioridade ao Reino de Deus, presente já na pessoa.
No quarto evangelho ela só será apresentada como discípula de grande fé ( Jo 11,10-44). No episódio narrado por Lucas, em que errou ela? Por que a repreendeu o Senhor, ele que foi tão compassivo com Maria Madalena (Lc 8, 2) e com a mulher encurvada (Lc 13, 10-13)?
Jesus repreende Marta não por ser ativa, mas por não aceitar que sua irmã seja diferente. O pedido de Marta parece indicar a pretensão de que Maria seja como ela. Ora, Jesus ama Marta, a ativa, mas gosta também do jeito contemplativo de Maria, cada pessoa é única, uma preciosidade irrepetível. Deveríamos aceitar os outros como são e não como gostaríamos que fossem.
Um pequeno exercício de imaginação pode ajudar a compreende melhor a repreensão de Jesus a Marta. Suponhamos que não fosse Marta que se queixasse, mas Maria. Esta teria dito: Senhor, veja que falta de educação de minha irmã. Tu vens nos visitar, ela continua fazendo o trabalho da casa. Dize-lhe que venha escutar-te!.  Nesse caso, creio que Jesus teria repreendido a Maria: Maria, Maria...tu escolhestes a melhor parte, mas alguém precisa fazer o exercício da casa e preparar a refeição.
 Conhecer a Jesus que se revela no outro
Marta e Maria podem ser vistas como tipos representativos da nossa amizade com Jesus. Todos os cristãos, de maneira particular e que pretendemos aprofundar a nossa relação com o Senhor. Sentimos desejo de fazer algo para Ele, no serviço aos irmãos e irmãs. Mas no meio das nossas atividades, experimentamos a saudade de uma vida mais serena e concentrada na contemplação daquele que nos amou até o fim, até o extremo de dar sua vida por nós.
Não raro, somos como esses pais ou mães de família que, absorvidos pelos trabalhos, necessários para o sustento dos filhos, esquecendo-se do que é necessário ou mais importante para estes: a atenção, os pequenos gestos de carinho, a expressão serena e descontraída do amor. Porque todo o dinheiro do mundo, todo o conforto que a moderna tecnologia pode oferecer a uma família, não substituiria jamais a presença de um pai e de uma mãe, sacramento invisível da presença de nosso Deus Pai/Mãe.
A presença dos pais fundamenta a presença dos irmãos e irmãs. As diferenças naturais entre eles enriquecem o conjunto da família. Ajudar os filhos é ganhar o coração dos pais. Acolher Jesus, no irmão, é acolher o próprio Cristo.
O episódio de Marta e Maria não fala do irmão delas, Lázaro, nem da sua revificação, sinal da Ressurreição de Cristo. Seu objetivo é mais modesto. O texto de Lucas ilustra duas maneiras legítimas e complementares de ser discípulo, discípula de Jesus: escutar sua palavra e trabalhar, por causa dele, no serviço dos outros.
O Senhor ama com amor único e especial, cada uma das irmãs. Mas a Marta, que não aceita o modo de ser de Maria ensina-lhe a respeitar, amar e valorizar o outro, o diferente. Esta nos parece ser a mensagem mais atual e relevante deste belo texto evangélico. Portanto, meus irmãos e irmãs Amor ao Serviço e a Perseverança na Oração são as duas fontes principais de alimentação do ministério.

(Cf. Luis González-Quevedo, SJ, “Marta e Maria: Acolher Jesus, acolher o irmão, na escuta e no serviço”. Itaici, n. 32 )


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